Ser Nêne


Ser Nêne é não ter desconfiômetro, e circular por aí com o som do carro a todo volume.
Dirigir e conversar no celular, esquecer de usar o pisca-pisca, posicionar-se no meio da pista, obstruir todos os espaços da rua.
Ser Nêne é dizer que todo político é corrupto, e que por isso vai votar em branco, mas quando ninguém está olhando cruza o sinal vermelho, joga o lixo no chão, fura fila e nem fica vermelho.
Ser Nêne é falar bem alto no celular, mesmo nos espaços públicos.
Ser Nêne é dizer “não gosto de tal livro e de tal autor” sem nunca ter lido uma página sequer.
Ser Nêne é não saber usar algumas expressões básicas de convívio, tais como “por favor”, “muito obrigado”, “desculpe” e “com licença”.
Ser Nêne é fazer as coisas com maldade, arrogância e segundas intenções.
Ser Nêne é cantar os pneus, dirigir em alta velocidade no perímetro urbano.
Ser Nêne é...

Você tem razão, amigo. Eu não devia pegar tão pesado com os nênes. Até porque ser Nêne virou regra, em vez de exceção.
Sim, existem nênes simpáticos até, uma mistura de ingenuidade com cegueira.
Eu conheço um Nêne engraçado. Sua dose de má-criação, talvez, deve-se ao fato de ter nascido prematuro, ou fora de época. Quem sabe em outro século poderia ter sido pacato cidadão normal.
Desde criança ninguém podou suas asas. Não o incentivou a se instruir mais, e exercitar sua autonomia.
Então, quem é o culpado quando ele faz suas cagadas?
Vocês sabem... O que pode fazer um Nêne diante dos perigos deste mundo?
Ser Nêne hoje é uma válvula de escape, se defender para sobreviver...

Pior... Não tem como fugir. O clima mal esquentou e os nênes proliferam por aí como mosquito da dengue.

O assalto - Mia Couto


A atualidade do conto a seguir tem a ver com a atualidade do seu tema: pouco conversamos com os outros. Principalmente com pessoas de terceira, quarta idades. O personagem reage com pavor pelo fato de ter sua vida posta em risco diante de um assalto. Mas fica surpreso quando vê que o assaltante reivindica algo diferente (no seu "roubo"): ele assalta em nome de uma conversa. E mais surpreendente ainda é que, em vez de falar, ele quer ouvir histórias de sua vítima...


Uns desses dias fui assaltado. Foi num virar de esquina, num desses becos onde o escuro se aferrolha com chave preta. Nem decifrei o vulto: só vi, em rebrilho fugaz, a arma em sua mão. Já eu pensava fora do pensamento: eis-me! A pistola foi-me justaposta no peito, a mostrar-me que a morte é um cão que obedece antes mesmo de se lhe ter assobiado. 
Tudo se embrulhava em apuros e eu fazia contas à vida. O medo é uma faca que corta com o cabo e não com a lâmina. A gente empunha a faca e, quanto maior a força de pulso, mais nos cortamos.

— Para trás!Obedeci à ordem, tropeçando até me estancar de encontro à parede. O gelo endovenoso, o coração em cristal: eu estava na ante-câmara, à espera de um simples estalido. Cumpria os mandamentos do assaltante, tudo mecanicamente. E mais parvalhado que o cuco do relógio. O que fazer? Contra-atacar? Arriscar tudo e, assim sem mais nem nada, atirar a vida para trás das costas?
Diga qualquer coisa.
— Qualquer coisa?
— Me conte quem é. Você quem é?

Medi as palavras. Quanto mais falasse e menos dissesse melhor seria. O maltrapilho estava ali para tirar os nabos e a púcara. Melhor receita seria o cauteloso silêncio. Temos medo do que não entendemos. Isso todos sabemos. Mas, no caso, o meu medo era pior: eu temia por entender. O serviço do terror é esse — tornar irracional aquilo que não podemos subjugar.
Vá falando.
— Falando?

— Sim, conte lá coisas. Depois, sou eu. A seguir é a minha vez.
Depois era a vez dele? Mas para fazer o quê? Certamente, para me executar a sangue esfriado, pistolando-me à queima-roupa. Naquele momento, vindo de não sei onde, circulou por ali um furtivo raio de luz, coisa pouca, mais para antever que para ver. O fulano baixou o rosto, e voltou a pistola em ameaça.

Você brinca e eu …
Não concluiu ameça. Uma tosse de gruta lhe tomou a voz. Baixou, numa fracção, a arma enquanto se desenvencilhava do catarro. Por momento, ele surgiu-me indefeso, tão frágil que seria deselegância minha me aproveitar do momento. Notei que tirava um lenço e se compunha, quase ignorando minha presença.

— Vá, vamos mais para lá.

Eu recuei mais uns passos. O medo dera lugar à inquietação. Quem seria aquele meliante? Um desses que se tornam ladrões por motivo de fraqueza maior? Ou um que a vida empurrara para os descaminhos? Diga-se de passagem que, no momento, pouco me importavam as possíveis bondades do criminoso. Afinal, é do podre que a terra se alimenta. E em crise existencial, até o lobisomem duvida: será que existe o cão fora da meia-noite?
Fomos andando para os arredores de uma iluminação. Foi quando me apercebi que era um velho. Um mestiço, até sem má aparência. Mas era um da quarta idade, cabelo todo branco. Não parecia um pobre. Ou se fosse era desses pobres já fora de moda, desses de quando o mundo tinha a nossa idade. No meu tempo de menino tínhamos pena dos pobres. Eles cabiam naquele lugarzinho menor, carentes de tudo, mas sem perder humanidade. Os meus filhos, hoje, têm medo dos pobres. A pobreza converteu-se num lugar monstruoso. Queremos que os pobres fiquem longe, fronteirados no seu território. Mas este não era um miserável emergido desses infernos. Foi quando, cansado, perguntei:

— O que quer de mim?— Eu quero conversar.— Conversar?— Sim, apenas isso, conversar. É que, agora, com esta minha idade, já ninguém me conversa.
Então, isso? Simplesmente, um palavreado? Sim, era só esse o móbil do crime. O homem recorria ao assalto de arma de fogo para roubar instantes, uma frestinha de atenção. Se ninguém lhe dava a cortesia de um reparo ele obteria esse direito nem que fosse a tiro de pistola. Não podia era perder sua última humanidade — o direito de encontrar os outros, olhos em olhos, alma revelando-se em outro rosto.

E me sentei, sem hora nem gasto. Ali no beco escuro lhe contei vida, em cores e mentiras. No fim, já quase ele adormecera em minhas histórias eu me despedi em requerimento: que, em próximo encontro, se dispensaria a pistola. De bom agrado, nos sentaríamos ambos num bom banco de jardim. Ao que o velho, pronto, ripostou:

Não faça isso. Me deixe assaltar o senhor. Assim, me dá mais gosto.

E se converteu, assim: desde então, sou vítima de assalto, já sem sombra de medo. É assalto sem sobressalto. Me conformei, e é como quem leva a passear o cão que já faleceu. Afinal, no crime como no amor: a gente só sabe que encontra a pessoa certa depois de encontrarmos as que são certas para outros.

À beira-mar - stanislaw Ponte Preta

Por que será que tem gente que vive se metendo com o que os outros estão fazendo? Pode haver coisa mais ingênua do que um menininho brincando com areia, na beira da praia? Não pode, né? Pois estávamos nós deitados a doirar a pele para endoidar mulher, sob o sol de Copacabana, em decúbito ventral (não o sol, mas nós) a ler “Maravilhas da Biologia”, do coleguinha cientista Benedict Knox Ston, quando um camarada se meteu com uma criança, que brincava com a areia.
Interrompemos a leitura para ouvir a conversa. O menininho já estava com um balde desses de matéria plástica cheio de areia, quando o sujeito intrometido chegou e perguntou o que é que o menininho ia fazer com aquela areia.
O menininho fungou, o que é muito natural, pois todo menininho que vai na praia funga, e explicou pro cara que ia jogar a areia num casal que estava numa barraca lá adiante. E apontou para a barraca.
Nós olhamos, assim como olhou o cara que perguntava ao menininho. Lá, na barraca distante, a gente só conseguia ver pares de pernas ao sol. O resto estava escondido pela sombra, por trás da barraca. Eram dois pares, dizíamos, um de pernas femininas, o que se notava pela graça da linha, e outro masculino, o que se notava pela abundante vegetação capilar, se nos permitem o termo.
― Eu vou jogar a areia naquele casal por causa de que eles estão se abraçando e se beijando-se muito – explicou o menininho, dando outra fungada.
O intrometido sorriu complacente e veio com lição de moral.
― Não faça isso, meu filho – disse ele (e depois viemos a saber que o menino era seu vizinho de apartamento). Passou a mão pela cabeça do garotinho e prosseguiu: ― Deixe o casal em paz. Você ainda é pequeno e não entende dessas coisas, mas é muito feio ir jogar areia em cima dos outros.
O menininho olhou pro cara muito espantado e ainda insistiu:
― Deixa eu jogar neles.
O camarada fez menção de lhe tirar o balde da mão e foi mais incisivo:
―Não senhor. Deixe o casal namorar em paz. Não vai jogar areia não.
O menininho então deixou que ele esvaziasse o balde e disse: ―Tá certo. Eu só ia jogar areia neles por causa do senhor.
― Por minha causa? Estranhou o chato. ― Mas que casal é aquele?
― O homem eu não sei – respondeu o menininho. ― Mas a mulher é a sua.

Preta, Stanislasw Ponte. O gol do padre & outras crônicas. Ática: 1997.

"Taca-lhe fogo no CTG, Marcos véio!"


Quem assiste o comercial da cerveja Polar, fazendo um tributo à Revolução Farroupilha, não deixa de levar um susto. Tendo como garoto propaganda o Peninha (Eduardo Bueno), chamado de “o maior historiador do mundo”, o comercial pretende fazer um “revisionismo histórico”, afirmando taxativamente que o RS venceu o Brasil – “deu de relho” na revolução.
A novidade da Polar é fazer diferente de outras marcas de cerveja. Não vende um mundo dos sonhos, ilusório, de juventude e beleza, etc. e tal. Ao escolher o tema da nossa tradição histórica, nos obriga a pensar sobre a mesma – e rever nossas certezas. Além do mais, aborda o tema usando um recurso retórico que herdamos da filosofia grega: a IRONIA.
Segundo o Aurelião, ironia vem do grego e significa “interrogação”. E também “modo de exprimir-se que consiste em dizer o contrário daquilo que se está pensando ou sentindo”.
Esta é a ironia do personagem, o “maior historiador do mundo”. Disse o Peninha, numa entrevista ao jornal Zero Hora de 7/09/2014, ao ser perguntado sobre a propaganda que ele protagoniza para a mais bairrista marca de cerveja do RS: “Será exagerado, histriônico e debochado... como eu mesmo (risos). Sempre achei sensacional a ideia de ironizar essa certeza tão gaúcha de que somos os maiores e os melhores em tudo – que, aliás, eventualmente parece ser levada a sério por certos segmentos da mídia...”.
É óbvio que Peninha faz o comercial com o objetivo de ganhar fama e dinheiro, segundo as leis do mercado. Mas também nos obriga a pensar nossa mania de grandeza. Toca nos temas significativos da cultura, de forma exagerada, levando-nos à dúvida, estranhamento e ao questionamento: “O que será que ele quis dizer?” “Será que esse historiador pensa exatamente assim sobre a nossa história?”
Nas mensagens habituais da publicidade quase todas as mães são loiras, as famílias são felizes, nosso carro representa nosso poder, físico e sexual... Enfim, “você é o que consome”.
Ao abordar o tema da Revolução, e a dúvida/certeza sobre quem venceu, o comercial da Polar não traz uma verdade (como de início aparenta). Provoca sim o exercício de pensamento a respeito de nossa história, além de bagunçar nossas verdades a esse respeito. Neste sentido se aproxima da ironia do filósofo grego Sócrates – o qual dizia que pouco ou nada sabia, e perguntava aos outros o que eles sabiam, os quais,  à medida que opinavam, iam tomando consciência dos limites do seu saber.
Ora, considero isso mais sensato do que termos uma verdade petrificada, um dogma, e sairmos “tocando fogo” em quem discorda de nossa opinião.
Vivemos um momento histórico repleto de ironias. O problema não são as ironias em si. O problema está na dificuldade que a maioria de nós temos para compreendê-las. Certamente que, se ficarmos no senso comum, sem buscarmos um senso crítico e o bom senso, nossa opinião permanecerá limitadíssima.
Será que os pilares em que fundamos a tradição gaúcha não estão com algumas (ou muitas) rachaduras? Aí, diante da insegurança de que venham a desmoronar, em vez de fazermos um esforço reflexivo, apelamos à violência, chamamos o “Marcos véio” para que vá lá e termine de vez com o debate, “tacando fogo no CTG”.
Os pilares de nossa tradição não foram feitos ao acaso. Foram construídos com nossa narrativa histórica. Fazemos escolhas quando edificamos nossa tradição. Escolhemos contar a história de vencedores ou de vencidos. Ou podemos dizer que em nossa tradição só houve vencedores, inclusive os índios, os negros e, até, o “gáucho”.
Qual o problema de hoje perguntarmos: “Será que foi bem assim, como diz Fulano? Mas qual é o interesse dele pra contar a história dessa forma?”.
E os pilares que sustentam nossa mania de grandeza, até quando se sustentam? Aliás, aqui cabe uma pergunta anterior: “Nós gaúchos temos de fato mania de grandeza?”.


De seu jeito polêmico e debochado, o “maior historiador do mundo” contribui, a meu ver, para dar uma balançada em algumas de nossas convicções. Acho isso ótimo, até porque descobri que pensar dói coisa nenhuma! 

Lições de política com o temerário Revisor

Minha conversa com o temerário Revisor rendeu mais do que escrever histórias e de como melhorá-las. Segundo ele, aplicamos a correção e a reescrita também na ação política.
- Tu tens acompanhado o horário eleitoral? – Perguntou-me.
Disse-lhe que, curioso por novidades, assisti pela TV durante os dois primeiros dias. Caro leitor, aposto que também você daria uma resposta idêntica à minha. Certamente compartilhamos o mesmo sentimento, “O que estou fazendo aqui?” diante do aparelho de TV, ouvindo um desfile de bordões saturados, tais como “nova forma de governar”, “sou o candidato mais preparado”, “vou cuidar das pessoas”, “meu governo será um pilar”, “serei um político de atitude”, “sou um homem de palavra”, “tenho propostas concretas”.
Foi então que o Temerário iniciou sua aula para ver se abria minha cabeça.
- Tu percebeu que esse povo que torce por um partido, ou candidato, ou inclusive time de futebol, não tem luz própria? Ao abraçar uma ideologia corre-se o risco de apagar a própria luz. Sim, apegar-se ou até “endeusar” os que sobem no palco e acendem (bem ou mal, forte ou fraca) a sua luz, significa um esquecimento ou fuga de si mesmo.
Veio-me à lembrança tiradas que ouvi comentarem do Temerário, tais como: “Você precisa ouvir melhor isso porque tá aprendendo”. Para mostrar que não andava por fora, eu comentei:
- Percebo nas redes sociais que os militantes veem os candidatos adversários como inimigos a serem combatidos. Dizem que seus candidatos representam o bem, enquanto os adversários representam o mal.
- Sim, parece um combate numa arena. Há pressa para nocautear o adversário. Comportam-se assim: que a eleição ocorra o quanto antes, e que possamos garantir o poder imediatamente. Acho um absurdo não valorizar o espaço da troca de argumentos. Parecem não se importar para com a transparência nas propostas, esclarecendo mais e mais a população.
Pois é, meus amigos, soube através de terceiros que o Temerário ficou uma dúzia de anos sendo persuadido por colegas, professores e militantes. Mas ele mesmo diz que mudou. Não é mais ingênuo. Sem falsa modéstia, ouvi de sua boca a afirmação de que somos todos professores. E de que precisamos admitir que só temos a aprender com os outros. Após um breve silêncio, perguntei-lhe:
- Será que é por isso que se percebe um certo conformismo e indiferença dos eleitores, pois acreditam que grande parte das promessas não serão cumpridas?
- É bom tu ficar atento sobre como esse jogo funciona. Logo vais ter o título de eleitor, acho importante não fazer como a maioria dos eleitores mais velhos. Eles esquecem pouco tempo depois em quem votaram, e também as promessas feitas e se foram ou não cumpridas.
E acrescentou:
- Pra mim, isso é uma traição. Os políticos apostarem na falta de memória e na ignorância dos eleitores. Enquanto isso, a história se repete: grande número de pessoas sonha com a entrada em cena de um salvador da pátria, um “Messias”, não compreendem que a democracia precisa da contribuição delas para debater propostas, propor projetos, fiscalizar as administrações e auxiliar na tomada de decisões.
- Pois é, qual o problema em não aceitar ou suportar um argumento bem elaborado, razoável, por parte de quem joga num outro partido? – perguntei-lhe.
- Absurdo não admitir que o nosso programa de governo, como qualquer outro, tem suas falhas, e necessita de correções. Os conflitos e o embate de ideias e argumentos é fundamental para arejar o solo da democracia, já que no seu funcionamento a sociedade possui diferentes interesses.
Foi então que eu associei política com futebol:
- Sabe que não consigo ver diferença no debate de gremistas e colorados e o debate entre militantes de diferentes partidos?
- Exato. É um equívoco tomar esse conflito de ideias de maneira emocional (como se fosse grenal) e não racional.
Revisitando seus tempos de professor, o Revisor explicou-me que o mais importante não é estar acima do bem e do mal. Nada de ser profeta. O que estão em jogo são as manhas e artimanhas. Mas elas devem nos levar aos “cernes” das questões. Embora possam haver vários cernes - quer dizer, as verdades são relativas.
E o Temerário (cada vez menos temerário) se empolgou e acrescentou:
- Meu sonho é que cada um de nós possa tomar consciência de sua liberdade de escolha, e que tenha cada vez mais autonomia, inclusive para se sentir responsável por essas escolhas, como por exemplo em quais candidatos votar. Ah, e que tenha coragem de revisar suas crenças, em vez de se agarrar a vida inteira a elas, pois essas crenças acabam sendo obstáculos para ampliar a visão de mundo, a qual poderá quem sabe acrescentar algo de novo ao mundo do qual faz parte.
- Acho que entendi – acrescentei – em vez de serem Maria-vai-com-as-outras, e totalmente passivas, deveriam ficar mais inquietas e se engajarem na vida social...

Andei matutando, ao retornar para casa. Por que chamam o Revisor de temerário? Acho que deram-lhe este apelido porque ele diz o que pensa, enquanto a maioria teme pagar o preço para ter luz própria.


 (TIRADAS do Teco, o poeta sonhador)

Clipe