Otávio, o temerário

Desde a infância ouvi falarem do Otávio, o temerário. É o grande olho e ouvido da cidade. Dos avisos fúnebres aos bailes. Dedicado em tempo integral à palavra - escrita, falada ou cantada - é o pombo correio que todos escutam.
Ele é o que se pode chamar de o revisor. Pequenos textos, seja científicos ou literários, dissertações, teses, livros... Os esboços que algum iniciante, depois de muita dúvida, decidiu publicar passam por seu olho de águia.
Vinte e quatro horas por dia, com amigos, em rodas de bar, está sempre farejando. Qualquer deslize nas palavras, pronúncias distorcidas, metáforas fora do contexto, e o temerário capitão anuncia “Veja bem...” e derrama meia hora de explicação lógica. Observador da linguagem e linguarudo, tem opinião para tudo.
Dorme com o rádio ligado. Sintoniza emissoras castelhanas. Tangos, polcas, milongas, chamamés. Quem me contou foi Tininha Meia Luna: enquanto dorme, os sonhos são espantados pelas canções que invadem seus ouvidos. É por isso que ele conhece todas as canções. Nunca lembra do que sonhou, mas sempre tem uma música nova pra cantarolar.
Quando conhece novos amigos, faz questão de filosofar: “Meu fígado acostumou a trabalhar no limite. Junto a outros órgãos vitais deste corpinho, ainda vão me levar à marca dos setenta anos. Cara, meu medo é o de me acostumar a viver, e depois não mais querer morrer!”
Embora metido a filósofo, Temerário sente-se em casa na poesia, e por isso tem o maior número de namoradas impossíveis de sua cidade. A mesa de trabalho está cheia de bilhetes e recortes de notícias engraçadas que ele retira de jornais. Os poemas são fragmentos dos amores rompidos, trágicos, que ele vive.
Escrevi umas historias e levei pra ele avaliar se tenho alguma veia literária.
Grave, como só ele sabe ser, deu uma olhada relâmpago e perguntou:
- Tchê, quantas vezes tu corrigiu e reescreveu isto daqui?
E, antes de eu sussurrar qualquer palavra, ele disse:

- Escrever qualquer merda, isso quase todo mundo faz. Piá, não dáaa pra ser comum!

TIRADAS do Teco, o poeta sonhador

De post e de circo


Todo mundo vive de pão e de circo.
Todos têm razão com seus belos motivos.
Pobre de mim, perdi dois amigos
 num dia épico de overdose. 
Era falta de pão e muita cirrose.
Menos eu, todos são príncipes - dizia o poeta.
Devoro Pessoa, com se fosse profeta.

Pensava perguntar, do alto do prédio, como faz o suicida:
Por que insistir em viver?
Suicidar-se significa enganar a morte, que dizem ter dia e hora marcada para nos visitar?
Hoje em dia, perguntas assim não emocionam ninguém.
Muita gente só quer ser curtida no facebook. Virar celebridade. Abrir as janelas da privacidade, escancarar-se para o mundo. Fazer sua dança, apresentar seu número. Mostrar a mais nova tatuagem, as fotos do casamento, as alianças do noivado, a aquisição do carro.
Inclusive o suicida, a maioria implora pra ser notada.
Saídas de emergência. Gritos desesperados: Olhem, estou aqui!
Apenas o eco, solidário, responde. Nossos gritos são garrafas jogadas em alto mar.
Quanto mais esperneamos para chamar a atenção, os outros dão a mínima para isso. Boiamos no mar confuso da solidão. Subimos e descemos ao sabor da maré do desamparo.
Privacidade jogada aos leões.
Cada um por si, maquiando as tatuagens ao redor do umbigo. Se preciso for, com muita dor. Mas dói muito mais se ninguém liga pra isso. Compartilhamos (virtualmente, claro) o bolo da mamãe. Os primeiros passos do filho. Os sentimentos e a inteligência de nosso cão. O início e o fim da festa. O aniversário. A viagem. A formatura.
Tem prazer maior do que as curtidas que visualizamos depois, em nossa página?
Tem sofrimento maior do que a indiferença para com nosso post, inteligente, original, criativo?
Somos e não somos o centro do mundo. Depende do tamanho de nossa ilusão. Somos e não somos o início e o fim de tudo. Depende da imaginação. O problema são os outros. Boa parte de mim resulta do que me fizeram. Nasci livre, mas me deixaram prisioneiro. Mas eu o permiti. Agora, ao reclamar, não passo de eco.
Teses e teses. Meras pretensões de verdade. E a verdade lá fora, disfarçada de qualquer coisa, ri da nossa cara, e se afasta quando estendemos a mão.
Aqui estou, com estes fragmentos, cheio de pretensão para que se torne um texto, lido por muitos. Também quero ser curtido, escutado, comentado. Igual todo mundo.
Rabisco estas linhas nos guardanapos do bar, enquanto aguardo o início do jogo. O jogo vai terminar empatado, vitória de um time ou de outro. O texto talvez não passe de vaga mensagem, presa numa garrafa, boiando solitária em alto mar.


As impressões digitais - Eduardo Galeano


Eu nasci e cresci debaixo das estrelas do Cruzeiro do Sul.
Aonde quer que eu vá, elas me perseguem. Debaixo do Cruzeiro do Sul, cruz de fulgores, vou vivendo as estações de meu destino.
Não tenho nenhum deus. Se tivesse, pediria a ele que não me deixe chegar à morte: ainda não. Falta muito o que andar. Existem luas para as quais ainda não lati e sóis nos quais ainda não me incendiei. Ainda não mergulhei em todos os mares deste mundo, que dizem que são sete, nem em todos os rios do paraíso, que dizem que são quatro.
Em Montevidéu, existe um menino que explica:
- Eu não quero morrer nunca, porque quero brincar sempre.

(Do livro: O livro dos abraços. L&PM POCKET).

Minha cadela se chama Tina



Tenho uma boxer que chama Tina e um vira-latas que chama Arthur. Três vezes por semana separamos nossas armas, coleiras e focinheiras, afinamos os cheiradores e vamos passear. 
Posso ser pedinte, virar o lixo e ser imundo, mas no meu íntimo sou o dono do mundo.
Meu tio abraçou as convenções para se acostumar com o som do seu nome. A acústica, o tom da voz, lembram sempre seu continente, tão vasto e tão algoz.
Quando entoavam sua pronúncia, as pedras uivavam e abafavam o seu silêncio de nuvem derradeira. Foi assim que fracassou na décima primeira missão de curar a dor das pedras.
Hoje meu tio ouve a música do seu nome com orgulho, pois tem uma cadela que chama Tina e um vira-latas que chama Arthur. Conhece todas as pets da cidade, e quando ouve os cães uivarem seus olhos de ET se enchem de luz.
Mas eu não consigo me acostumar completamente, com o fato de os bichos aceitarem o meu desejo de se tornarem gente. Se eu quero um dia voltar pro mato, por que eles precisam vir pra cidade, e me imitar?
Já não liguei, quando estava no bar com amigos, ceiando e brindando às pencas, e os vira-latas se aproximavam com seus olhares humildes, orelhas, pulgas e pelos, a implorar não só comida mas também carinho.
Repentinamente eu vi, com estes lindos olhos que a terra há de comer, que também sou vira-latas catando abraços, olhares e suspiros poéticos. E o que agora me preocupa é nem ligar pra isso.
Sei que estou pretensioso demais ao ver com certo medo os bichos se tornarem gente. Embora eu também seja guaipeca que fugiu das vitrines e correu até os lugares apinhados de gente, a implorar um novo lar.
Mas me soa estranho minha cidade ter quase o mesmo número de animais do que de gente. E minhas orelhas empinam quando vejo humanos passarem mais necessidade do que os bichos. Nessas horas lembro de um pedaço de uma música do Caetano: “Algo parece estar fora da ordem, da nova ordem mundial...”.
Temo pelos animais domésticos. Tenho pesadelos quando penso numa possível revolução dos bichos. E sofro também por mim, que me tornei doméstico.
Mas sei também que se eu forçar até o limite do meu olhar, até o limite da minha compreensão, se eu dobrar as vontades mais urgentes, então compreenderei feliz que não sou mais do que aranha, cobra, gato, cão e carrapato, pois todos nós temos nossos humores, manhas e artimanhas, para sobreviver pelo menos até amanhã de manhã.

O que me consola é que tenho uma boxer que chama Tina e um vira-latas que chama Arthur. Três vezes por semana agarramos coleira e focinheira e, faceiros como as árvores e os postes, deslizamos a passear.


TIRADAS do Teco, o poeta sonhador

Existe educação ideal?


Penso na educação ideal. Penso muito sobre isso, afinal sou pai e professor.
Penso na idade ideal para se alcançar a aprendizagem ideal. Repito tanto a palavra “ideal” porque é esse o objetivo (e sonho) de nós adultos.
Alguém já perguntou às crianças sobre qual é o seu ideal?
Abrimos um pouco mais os olhos, tentamos outros ângulos de observação, e percebemos chocados que a gurizada pouco está ligando para esse ideal dos adultos. Então, esperneamos e chegamos à conclusão (meio resignada) de que o futuro deles vai ser uma catástrofe.
Outro dia um pai queixou-se do seu filho, de 12 anos de idade. As velhas e conhecidas dificuldades: notas baixas, repetência de ano, déficit de atenção, enfim, o menino manifesta grande indiferença para com a escola.
Com sofrimento desenhado pelos pés de galinha em torno dos olhos, o pai desfiou uma ladainha de preocupações a respeito do futuro do rebento. O menino não serve pra nada, é um inútil – e essa conclusão é reforçada ao comparar a “performance” de seu filho com o desempenho de alguns filhos de amigos e vizinhos.
Os pais sonham e projetam nos filhos, muitas vezes, aquilo que eles não alcançaram. E investem, inclusive boa grana, para que os filhos realizem o que eles não puderam realizar.
Parece-me cada vez mais comum: quanto mais a família, a escola e a sociedade apertam o cerco, impondo regras de utilidade, mais se fazem notar crianças e jovens “inúteis”.
Nessas horas vemos coisas interessantes. A criança pode ter déficit de atenção e aprendizagem, mas não de alegria e de poesia. E procura ganhar fôlego indo à biblioteca, e mergulhar nas histórias dos livros, para respirar um ar mais leve.
Porém nós adultos, obcecados pela ideia de utilidade, não percebemos esses sintomas – e um deles é o de rejeitarem esse alimento que não lhes apetece. E é por isso que a escola esperneia, tentando empurrar goela abaixo aqueles saberes que podem ser “úteis” a esse modelo de sociedade, mas que dão pouco prazer a quem deles se alimenta.

No fundo no fundo, estamos bastante desamparados. Pais, professores, crianças e jovens. E então nos agarramos com desespero à primeira corda de salvação que nos jogam. Carentes de luzes (próprias) que mostrem quais possíveis caminhos escolher, agarramos com unhas e dentes o que a sociedade utilitarista oferece. Com muita renúncia, estresse, e quase nenhum prazer.

Clipe