Poesia, é o que temos para hoje


Faz uma semana que ela te deixou e você ainda não arranjou um novo amor. Para sublimar a dor você viajou na poesia. Escreveu rimas breves e líquidas, como o amor que você sentiu na carne ou viu nas novelas.
Novo sonho, outra perspectiva no olhar, agora você aborda as pessoas nas ruas, praças, feiras e shoppings. Você grita, para plateias apressadas, dizendo que há pouca sensibilidade, pouca vogal, rimas e gramática. Devora Drummond, Pessoa, Adélia Prado, inclusive o diabo, dorme no máximo cinco horas por dia.
No jantar teu amor flertou com outra, o mundo veio abaixo, nada mais fez sentido. 
Nas festas e feiras todo mundo quer beber e dançar canções simplórias e repetitivas, de dor de corno e sexo parcelado a juros altos, sem dar a mínima pra poesia.
Mas você não pode perder o foco. Tens de ser a número um. A sociedade competitiva e sua meritocracia está de olho em você!
Vai, seja o topo da pirâmide social. Tens um nome e talentos a revelar e, se Deus quiser,  o mundo logo vai aplaudir.
Engole o choro, guarde na gaveta o teu sentimento em forma de poema, providencie roupas de marca, retoque a maquiagem e grite para quem quiser ouvir: "Poesia... É o que temos para hoje!"

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

Imagem do designer polonês Igor Moroski, do site http://www.equilibrioemvida.com/2016/04/designer-cria-imagens-que-nos-convidam-a-filosofar-sobre-a-vida-moderna/.

Início de inverno


Quanto mais você quer que ele fale, mais ele se cala. Curioso pelo seu comportamento perto do inverno, pergunto aos plátanos, quando saio a caminhar.
Com o olhar, pergunto às garçonetes, que insistem em satisfazer minha gula de anjo. Mas de anjo não tenho nada, pois ando curioso com o movimento de suas ancas e pernas, quando sorriem para os clientes em cada mesa que passam.
Minhas perguntas silenciosas dirigem-se aos dramas da amiga que conheci a poucos dias. Mas o que ela sente não tem nada a ver com a profusão de minhas tristezas.
Olho pra todo lado pra evitar olhar o centro. Mas este desliza, torna-se oco. O que se esconde por lá?
Minha gata simplesmente sumiu. O ambiente está abafado, as contas descontroladas, na última semana de abril.
Um conhecido diz que sua prole aumentou. O medo do câncer também. O medo dos agrotóxicos e do excesso de luz.
Um quilinho a mais, o esforço ladeira abaixo.
O conselho da amiga, tão singelo e ingênuo.
Quanto mais você quer falar, mais você se engasga.
Quanto mais você quer emagrecer, mais você engorda.
Devem ser bons presságios, ou sinais imperceptíveis do inferno. Ou, quem sabe (tomara), bons fluidos que sopram com os primeiros frios deste inverno.


(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

Amada amante...


ET - É a bela, recatada e do lar?
TECO - Não. A outra. 
Para o bem da tradição, da família e da propriedade.

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

Don Juan

Eu sou a alegria da dona de casa, que dedicou sua vida a criar filhos e cuidar do marido.
Sou a esperança daquelas que abriram mão de realizarem suas mais loucas fantasias.
Eu sou o delírio do amor tardio cheio de recompensa.
Desperto as garotas para salão de beleza, academia, a parcelar cremes e perfumes, fazer ioga e massagens, atualizar o dízimo na casa de Deus.
Abro as portas das livrarias para que elas comprem livros que ensinam a arte de ser feliz e de como ter uma alimentação saudável, uma mente saudável, e as estimulo a que decorem as rezas dos gurus da autoajuda.
Abandonei a missão de inventar a minha ficção para ajudá-las a insuflarem a sua.
Deixei de ser fixo, de partir de um ponto fixo, de ter ideia fixa. O que me fixa agora são os movimentos da sua paixão.
Não sei se vai ter segundo tempo. Eu sou o juiz padrão Fifa que deixa o jogo correr.
Eu sou o santuário onde elas rezam. O santo do altar, as velas perfumadas.
Eu sou o tempo da Quaresma, o tempo da Novena, o templo da vitrine do shopping.
Eu sou o apelo para um telefonema na manhã seguinte dizendo “amor, senti tua falta”, “amor, pensei o tempo todo em você!”.
Eu sou a noite mal dormida impichado pelo ciúme febril, as unhas roídas pela alta voltagem do medo de ser abandonado.
Eu sou as fantasias que elas repetem e oscilam como o pêndulo.
O tempo passa, o tempo não passa, e a dor é incompreensível, nasce num lugar e se sente noutro.
E se eu estiver blefando?
Em vez de ser “o cara”, se eu fosse o vírus da gripe, o inseto da zika, o corrupto inocentado, se eu fosse um verme à espera da tua morte para corroer tuas carnes de maneira impiedosa, se eu fosse o Deus tão proclamado, ou um reles mortal pecador promíscuo irresponsável, você me destituiria do cargo?
Muito prazer. Na minha fantasia, sou Don Juan.


(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

Sexo explícito

Chamou-me atenção esses dias num grupo que criamos no wattsapp para articular nossos jogos de futsal semanais. Uma das primeiras postagens, de um amigo, não foi para confirmar se ele ia jogar naquele dia ou não. Ele simplesmente postou oitenta e poucos vídeos pornôs.
Na hora pensei se nós adultos não estamos cada vez mais infantilizados... Acreditava que as energias sexuais em pré-adolescentes e adolescentes são bem mais evidentes...
Bom, pensei, deve haver alguma explicação para esse bombardeio de videos pornôs em redes que permitem as pessoas mostrarem seu "verdadeiro eu" que, à luz do dia, é/deve ser reprimido - para o bem da saúde mental das famílias e dos casamentos. 
O fato me fez lembrar desta história do Luis Fernando Veríssimo, "Sementinhas":


- Professora, sabe sexo explícito? 
- Pronto - pensou a professora. Chegou a hora. A turma ainda não estava na idade para educação sexual, mas quem sabe qual é a idade, hoje em dia?
- Professora, sabe sexo explícito?
- Eu já ouvi, Maurício. É sobre isso que nós vamos conversar hoje.
- Mas, professora...
- Senta, Maurício.
O menino estava impaciente. Ela entendia. Todos deviam estar impacientes. O sexo estava por toda parte. Era natural a curiosidade deles. Mesmo naquela idade.


- Todos sabem o que é uma planta, não sabem? Agora eu quero o nome de uma planta. Judite?
- Flor - disse a Judite.
- Muito bem. E que tipo de flor?
- Rosa! - apressou-se a dizer a Rosa.
- Muito bem. Eu vou desenhar uma rosa. E a professora desenhou uma semente.
- Isto parece uma rosa?
- Não senhora.
- Claro que não. Isto é uma semente. É o começo da rosa. Toda plantinha começa com uma semente. Alguém bota uma semente na terra e a plantinha vai crescendo, vai crescendo...
- Professora...
- O que é, Maurício?
- Sabe sexo explícito?
- Espera um pouquinho, Maurício. Nós já chegamos lá.
- Mas, professora...
- Senta, Maurício.
- Mas...
- Senta!
- Tá bem.
E o menino sentou, com cara de mártir.
- Primeiro tem a semente. Depois a plantinha vai nascendo da semente. Vocês também começaram de uma sementinha, como esta. Dentro da barriga da mamãe. E quem foi que botou a sementinha na barriga da mamãe? Alguém sabe?
- Foi o meu pai - disse o Maurício. - Mas, professora...
- Foi o papai, certo. Vejo que essa parte vocês já sabem. E como é que o papai põe a sementinha na barriga da mamãe? Quem sabe?
Silêncio.
- Professora...
- O que, Maurício...
- Nós sabemos tudo isso.
- Tudo?
- Tudo - confirmou a Rosa.
- Sabe sexo explícito? - insistiu o Maurício.
- Sei - disse a professora, desconfiada. - Que que tem sexo explícito?
- Passarinho faz sexo expíucito.
- Como é?
- Expíucito. Passarinho faz sexo expíucito.
Por um longo tempo, enquanto as crianças riam, a professora ficou paralisada. Depois apagou a semente do quadro-negro e disse para todo mundo pegar lápis colorido e desenhar uma paisagem bem bonita.

Clipe